A História que começa antes mesmo de nascer
Eu vôo com o combustível encantado pelas pessoas e pelos acontecimentos. Tenho a leve impressão de que este “encantamento” vem de antes de nascer, mas vou contar aqui partes da vida que vêm depois do dia sete de janeiro de 1982, o dia que nasci. Também tenho a impressão de que eu fui adaptando os meus acontecimentos em histórias tão minhas ao longo do tempo da vida, as quais talvez não tenham acontecido bem assim do jeito a seguir, mas assim elas fazem sentido.
Nunca tive memória destas de descrever os fatos, mas uma coisa é clara: eu sou muito parecida com o que eu era quando criança, então talvez os entendimentos das minhas breves descrições da infância venham mais fortes pra quem sabe como sou.
A minha primeira lembrança da vida foi de quando eu tinha uns 3 anos, e eu estava na casa de um casal de amigos dos meus pais, lá na minha terra natal no Pontal do Paranapanema, Teodoro Sampaio. E a filha desse casal, que devia ter uns 16 anos, me levou pra ver uns jacarezinhos, uns filhotinhos de jacaré, no quintal da casa deles, e por esse raro motivo talvez ela fosse uma das minhas melhores amigas. Pensando melhor, a verdade é que criança de 3 anos não categoriza assim as pessoas e amigos como melhores ou piores, mas foi uma grande aventura compartilhada com uma grande amiga. Nessa época obviamente eu não sabia de onde vinham nem pra onde iriam estes jacarés, e mesmo assim eu amei os jacarés e tudo mais que nem lembro. Essa é a primeira de todas as histórias minhas.
Muito pequena eu era nesse tempo, e quando a gente é pequena tudo é grande, as lembranças se misturam, as nossas pessoas queridas são heróis e heroínas, as casas são enormes e em especial as árvores da minha casa eram enormes. No quintal da minha casa de Ilha Solteira, já com uns quatro anos, eu tinha treze árvores, eram minhas mesmo, mas não de forma egoísta. Esse número é muito forte e eu sabia muito bem qual era qual. Não sabia as espécies delas é claro, talvez nem hoje eu soubesse, talvez sim, mas o que importa é que me relacionava com elas, dava outros nomes a elas, convivia. E assim as árvores de antes trazem alguns porquês do meu presente, aliás, é bom que se diga que tudo que estou contando aqui me trouxe ao meu presente, e as obviedades que têm que ser ditas, embora a maior parte delas não vou dizer aqui por falta de tempo e espaço.
Voltando às 13 árvores, uma, por exemplo, era o meu cavalo. Quantas léguas eu viajei nesse cavalo, algumas acompanhada por minha mãe, outra grande companheira de aventuras, às vezes por amigos da imaginação, outras vezes sozinha mesmo.
Outra árvore era a maior goiabeira que eu já vi em toda a minha vida, gigante goiabeira, maior que a samaúma. Essa goiabeira dava muita goiaba e cheiro ou ano inteiro do meu entender. Meu padrinho quando ia, fazia doce, eu preferia vê-lo fazendo do que comer, nunca fui de comer doce doce. Mas o fazer era um ritual que envolvia os parentes e eu ficava por perto dos adultos, sempre, observando as maneiras gostosas do que eu pensava que era somente viver e na verdade era um superar a vida.
A goiabeira entupia a calha da casa, ela ia pra cima do telhado e meus irmãos e meu pai sempre queriam subir e se arriscavam muito muito lá no alto e subiam mesmo. E eu também queria subir como os meus irmãos, claro, eles eram muito maiores, e eu queria acessá-los. E na verdade eu tinha um pouco de medo misturado com admiração por ela gigante goiabeira e pelos irmãos e do pai, subidores de goibaira gigante. A goiabeira era daqueles símbolos que a gente tem, de ficar imaginando "quando eu for grande....".
O cavalo e a goiabeira eram as principais, lembro que existiam mais 11 que faziam parte da minha vida, hoje lembro mais do número do que delas.
Também faziam parte da minha vida 2 cachorros. O primeiro foi o Kiko, eu dançava com o Kiko, pulava, brincava muito. E um belo dia, eu estava em Porecatú, na casa do meu padrinho, e o vizinho do meu padrinho tinha uma cachorrinha muito linda que eu ficava espiando pelo muro. Eu gostei da cachorrinha, eu tinha ainda uns quatro anos. Sem contar pra ninguém eu toquei na casa do vizinho e pedi a cachorrinha pra ele. E ele me deu a Léssi Liu, simples assim, e meus pais deixaram e boa.
Foi intensa a amizade, mais durou pouco, pouco quando eu penso agora, mas foi um tempo que não se contava ainda naquela época, ela morreu depois de uns dois anos com o esôfago perfurado por um ossinho de frango. Foi a primeira morte? Encarei com naturalidade, acho. Ela já nos finalmente ficava numa caixinha lá no fundo do quintal. As pessoas chamavam e ela não atendia mais. E eu mesmo sabendo que não devia, chamei e ela tentou vir pra perto de mim e não conseguiu. Comigo ela queria vir e eu senti isso.
O Kiko continuou vivo por mais tempo. E por conta da cachorrada eu queria ser veterinária, acho que alguém que falou pra mim disso e eu abracei a idéia, coisa de criança, de adulto também.
Teve um fato nestes entremeios de tempo, uma cobra apareceu na minha casinha de boneca do quintal, era uma coral falaram, e eu não tive medo, nem sabia o que era coral ou não, mas o fato é que ja tinha um coragem, mas meu irmão matou a cobra com o pneu da bicicleta, foi aventura meio séria.
Tenho muitas recordações de como eu era, como eu me sentia. Nesta época de Ilha Solteira, eu tinha uma ligação que hoje eu penso que era muito grande com esse lugar, eu era feliz e sabia. Lá tem muita água, água limpa, Rio Paraná, minha ligação com águas de rios vem disso.
Nessa época minha mãe me contava muita história, histórias de roça. As histórias da roça são muito lindas, histórias de bicas d’água, de mata, de matulas, de cavalo, de causos, de muito passarinho, de noites diferentes, de simplicidade. Não tinha luz nas roças da minha mãe, então não tinha televisão. Tinha carinho de família em roda. Essa era a parte boa da roça. A parte ruim, não foi aí que eu soube.
Tem a parte da história da mãe que a água da represa cobriu o lugar que ela nasceu.
Ela contava muito da minha avó, que morreu dois meses antes de eu nascer. Uma figura especialíssima que cozinhava abóboras e as folhas novas das abóboras quando não tinha carne.
Olha que coisa, eu sempre sonhei com esta vida das histórias de roça da minha mãe, ficava imaginando muito e até planejando, fazendo desenhos, projetos. Grande parte das minhas brincadeiras tinha a ver com isso, brincadeira de casinha era na roça, ou eu brincava de ciência. Fazia várias experiências, terra, água, folha, pauzinho, goiaba, sei lá.
Quando eu tinha cinco anos aprendi minhas primeiras músicas no violão, com o meu primo mais velho. As músicas eram todas sertanejas, eu sempre gostei de sertanejo, moda. Uma das que eu mais gostava fala assim: “Os passarinhos enfeitam os jardins e as florestas, são iguais as melodias, vivem n’alma de um poeta...o construtor da floresta, faz seu prédio na paineira e o maestro sabiá, faz seu show na laranjeira...”. Ou: “Nós somos andorinhas que vão e quem vem a procura de amor...”. Muitas.
E assim foi indo até eu mudar pra São Paulo com 6 anos. Lá eu não gostava, era feio, rio Tietê. Como aquele rio tão sujo podia desaguar no rio Paraná, o rio da minha infância?
E sempre quis sair de lá, mesmo depois que fiz os amigos, que me entreguei pras coisas que só tem lá e tudo mais. E voltar pra casa dos meus tios que continuaram no interior era tudo que eu queria também. Então nas férias eu voltava às minhas origens.
Todo lugar que eu ia fora de São Paulo eu tinha que arrumar um cavalo pra andar.
Ia pra Ilha Solteira e pra Teodoro, ia com meus primos nadar no rio. Eu ia de bicicleta com o meu primo mais velho. Eu tinha uns sete anos e pedalava quase 9 quilômetros (acho), essa parte foi muito boa. Quando eu voltava pra São Paulo eu voltava apaixonada por todos, minhas tias, meus tios, meus primos, eu chorava, o barulho do ônibus Itamarati ou Andorinha, me fazia lembrar tudo, me dava dor no coração, eu lembrava até dos cheiros.
Tinha férias que a gente ia pra praia. Foi em Ubatuba com o meu pai que começou a minha ligação com a água do mar e com a mata atlântica. Caminhadas, ondas, pedras, os perigos mais gostosos da vida com meu outro grande companheiro de aventuras. Nisso aí eu já devia ter uns 10 anos.
Também ia pra Minas Gerais, de onde vinham todas aquelas histórias de roça, eu ia visitar umas roças, eu gostava, mas a minha expectativa era tão grande que eu acabava ficando um pouco decepcionada. Eu debulhava milho pra dar para as galinhas, escutava umas histórias dos tios velhinhos e já sozinhos da minha mãe e do meu pai, acho que era um pouco melancólico para todos.
Minha avó, mãe do meu pai morava em Passos, ela morou em várias casas, mas acho que todas elas tinham sabor saboroso de suco de limão galego, feijão cozido com banha de porco, pão de queijo, de outros tios, tias e primos e muitos, muitos sabores. Minha avó contava muita história também, histórias de roça também, muitas, muitas, muitas. E uma das histórias é a história do Tambuco Siriri, essa tinha que contar toda vez.
Que depois de tanto eu escutar, virou história para salvar rios que eu já contei mais de mil vezes.
Enfim, a família em primeiro lugar, os amigos que eu fiz, os queridos, os amores, a música e os lugares que eu andei me influenciaram e continuam, sou parte deles e eles de mim. Isso não tem jeito: é assim.
Cachorros, árvores, goiabas, rios, rituais, roça, limões galegos, bicicletas, primos, violão, mãe, pai, irmãos, padrinhos, queridos, amores, amigos, São Paulo, música, escola, rodas.
Isso me trouxe a Piracicaba, pulei uma parte grande da história, porque não dá pra contar tudo de uma vez só. Ah, acho que é legal dizer que mudei de Veterinária para Engenharia Florestal porque era menos concorrido e também porque tinha conhecido junto com pessoas queridas minhas, naqueles momentos incríveis de 17 anos, uma linda música que se chama Matança do compositor Jatobá. Fala o nome de mais de 40 árvores, e como eu já gostava de árvore mesmo, achei que era um sinal e decidi.
Vim pra Piracicaba porque queria sair de São Paulo, e achava que Engenharia Florestal tinha a ver, eu achava que era por isso. Mas na verdade vim me conhecer através de outras pessoas que conheço a todo tempo. Outros irmãos e irmãs e companheiros e companheiras e amores de aventura que também sobem em goiabeiras enormes que eu tenho medo e vontade de subir.
Aqui em Piracicaba em oito ou nove anos conheci em especial 3 cachorros (Fulo, Dendê e Flor) não dou frango pra eles. Conheci o Piracicamirim e pessoas que estão ligadas por suas águas que deságuam no Piracicaba que deságuam no Paraná e que me encantam. Fiz inúmeras disciplinas na faculdade que falavam de árvores de todos os tipos, mas a que eu mais gostei foi a que falava de pessoas que gostam de árvores e de tudo que as envolvem, como por exemplo, rituais de doces de goiabas. E conheci mais de muitas pessoas incríveis.
Meus pais foram morar em Ubatuba, “oitenta por cento de mata atlântica preservada”, sempre que posso vou pra lá.
Fui pra Amazônia pra saber que o Brasil é grande demais, e que lá existem árvores maiores do que as do meu quintal, mas nunca tão grandes como a goiabeira. Fui pro Pantanal e vi jacarezinhos. Fui para os países do Sul da América do Sul, pra saber onde vai dar as águas da bacia do Paraná e pra saber mais que nunca que me identifico com essas águas.
Moro e trabalho na bacia hidrográfica do Piracicamirim. Descobri nessa bacia que ser jovem é buscar transformação, independente da idade, e isso me conforta. Gosto de ser urbana porque tem mais gente na cidade, acho também que é porque já morei com mais de 25 pessoas e já conheci mais de muitas, lembro nome de "quase" todas e sinto saudades de todas. Ainda gosto muito da roça, mas sei que hoje é diferente das histórias de roça, não tem mais tanta roda, tem energia elétrica e tem televisão.
Continuo tentando ser artista, tenho o meu violão e nossa música. Mas também artista no viver a vida no que é difícil, nessas buscas homéricas, doídas algumas vezes por ano e divertido e prazeroso também. Ouro é encontrar um momento tranqüilo e encontro, olhando árvores plantadas por mim, por meus próximos e por pássaros crescendo no meu quintal de agora. Às vezes eu posso parecer mais tranqüila do que sou, e o tempo voou, pra todos e pro mundo, pra mim é necessário entender melhor o que isso significa, com alegria. Assim me encontro no espaço e no tempo e continuo me sentindo encantada pelas pessoas e acontecimentos.