SOBRE A MINHA LIBERDADE
Liberdade vem com força quando não existe tempo
Saio, criança na chuva
Entro na morte das coisas
Degusto uma saudade de quem quase sou
Me encontro com Deus
E canto
Quando não quero explicar o que não precisa
POLÉN QUE DÁ FRUTA QUE DÁ SEMENTE QUE DÁ ÁRVORE QUE DÁ INFÂNCIA
Devagar é árvore forte
Preciso é polén
Natural é fruta
Bonito é semente
Rápido é infância
PORTA ABERTA É PASSAGEM DE CORAÇÃO
Olho bonito
é igual rio limpo
Dá vontade de entrar
em brilho
Da Lua
Que é do Sol
Dá vontade de por olho
em horizonte
Linha de água
É mar
VARIAÇÕES SOBRE AQUELE TEMA
O amor é um ponto
É isso.
Tanto
estrela
Como
Um
OS SIGNIFICADOS DA MINHA EMINÊNCIA DE GERMINACÃO
É um rufar de tambores. É também uma sensacão de que falta algo, mas que falta pouco, é a constatacão do imperfeito. E por hora vou vivenciando essa imperfeicão como uma busca da algo inexplicável.
Uma vontade de ser e ter tão...
Ir com a vinda, vir com a ida da vida na potência
Confiar fiando fios de ouro do sol e prata da lua
Valorizar o silêncio das tristezas
Meu tempo, a paz e o reboliço das idéias do futuro
RECEITA DE ÁLBUM DE FOTOGRAFIAS DA BAHIA
Fazer recordar um pouco menos das imagens e das cenas, um pouco mais fazer recordar sentimentos sutis, momentos poéticos. Imaginar mais e perceber a intensidade e a velocidade de todas as coisas que saltam aos sentidos.
Prefiro deixar claro que as fotografias são amostras autênticas da efemeridade e a liberdade pode estar em se deixar permear pelo efêmero e então...o álbum tira um sorriso, um arrepio, um choro ou um pensamento-luz.
Nos primeiros momentos com a Bahia, conheci algumas pessoas muito jovens como eu. Todas em poucos minutos sentiram sorte. Pousar no litoral sul-baiano é quase uma ilusão, a euforia chega a superar a felicidade.
Abertura da mão que segurava a barriga, passava o frio, casas coloridas e paralelepípedos baianos. A foto capta esses momentos: uma iluminação de amanhecer; os cotovelos que apóiam os queixos na mesa; os olhos, no canto felizes, assim chegados sentindo Bahia.
A Bahia amanheceu para nós como se fosse oferecer um acarajé aos recém chegados, praticamente queridos, sem dúvida turistas, sem dúvida paulistas, sem dúvida incompletos, saudáveis, amáveis, não serenos, pouco tranqüilos e à espera de um milagre. As buscas de cada um não se aflorariam com uma só pose.
De antemão, muito do que eu procurava não estava com a Bahia. A minha busca continua. Quando obtive algumas respostas, não mais lembrava os porquês das perguntas.
O horizonte, os raios solares, primeiros a mergulhar no mar de manhã. Antes do peixe acordar eu já estava olhando Bahia, verificando a quase pressa do vento ao balançar o coqueiral, um caso de amor entre as palhas e a brisa. E o mar, água salgada, a se experimentar quando possível.
De cima a praia parecia imaginária, a igreja era branca e azul, azul claro é claro. Me causou sonolência visualizar o novo mundo com ares de dejavu.
Eu já sabia da Bahia, mas não que era lapidada pelo vento e pelos índios.
As embarcações, três ou quatro, a atravessar um rio forte e marrom, os músculos brilhantes do barqueiro-motor, as mochilas dos eufóricos paulistas denunciando desde então vontade de se instalar e perdurar.
Eu já sabia do verde, mas não imaginei o mangue trançado. A recepção, mais a frente, de uma vila aconchego, casas e estabelecimentos comerciais coloridos.
Com os pés passando n’água, que se pensasse em amenidades antes que o Sol fosse quente demais. Sentir a água regar um broto meu, uma coisa nova prontíssima para se transformar de novo. O fluído trouxe minha bagagem kármica também. Rio e quase a brotar lágrimas.
E preferi pensar nesse meu coração até que chegasse a hora do meu desembarque e eu própria jogasse meu barco ao vento, meu corpo ao mar.
Recém chegados e já queimados os pés. O vento fez o papel de insistente e nos fez sentar nas redes. De um ponto alto vê-se a água colorida do mar, mas principalmente o coqueiro da janela e como se fosse combinado a primavera entrelaçada no portão.
Na praia, um vento de ventar a ziquizira e olhando para o mar a constatação da Bahia. Mais uma vez a brisa e mais uma vez as ondas trazendo o meu ser embalado e lacrado.
- Será que ele chega na praia?
Uma ansiedade que a velocidade do tempo enganava, não mais esperava futuro, aproveitaria só o que passa e com certeza entregaria a mim mesma o que fica, o pacote, aquilo mais sólido que a praia, meu desaconchego. Mas enquanto a Lua crescia preferi mergulhar no mar.
- Depois eu mergulho intenso, agora mar raso, sinceramente milhões de sorrisos.
As falésias fizeram recordar outra viagem com o mar degradê de azuis e verdes. O sol iluminava tudo isso, um prazer.
Ao caminhar pelas ruelas: areia dourada; casas e casitas; flores e cajus. A grande verdade é que se têm êxtases ao andar por lá. Os caminhos são praticamente os mesmos, mesmo quando não se sabe aonde ir e as flores vão deixando um semblante de apreço, os pés vão se queimando sem queixas, depois da primeira camada a pele se adapta à textura. Os olhos surpreendem-se com as cores e há quem sem surpreenda com um brilho maior (é opcional a transcendência). Pode se dizer que a Terra girava mais devagar e a noite quase tudo é escuridão, o contraste está em outros sentidos, caminhar não é tão somente visual, aguçados o tato, o olfato e o ouvido.
- Se fosse a árvore Caraíva, não seria a vila florida você.
Cachos. Não sei ao certo a intensidade daquelas flores, no chão tapete. Os amigos, componentes do álbum, nem sequer pousaram mais. Só passaram por lá pisando devagar no tapete, por segundos viraram flores baianas de um Flambaiano. Depois do portal vermelho, em direção à praia, fica a impressão de um bom projeto paisagístico, bela instalação artística divina.
E quando a Lua estourou no céu, vazou uma porção de brilhos para o mar. As plantas tomaram banhos noturnos de luz e areia esfriou meus pés. Tentei voltar aos cais com os meus olhos e vi: meu barco partiu, alto mar de um balanço de mim.
Amanheci profunda a desembaraçar o manguezal, transformei-me em árvore de novo e um silêncio se fez! Eu esperava o barulho da lua a vazar do meu humor, não quis interferências da civilização, mergulhei com frio e choro. A Lua a minguar em mim.
Senti a poderosa Lua, regente daquela peça, as notas começaram em flor, até que passou, efêmero-luz.
O amor representou na Terra a Senhora Deusa da Imperfeição. No coração isso é batimento forte, na garganta é um laço a ser desatado pela mente.
- Mais pra frente tranqüilidade bate em mim, me mostra anjos, me aquece os pés, me mostra plantas e animais.
A transição, uma verificação da minha flexibilidade.
- Ah meus apegos, meus desejos comuns. Dessa vez quero chegar mais perto da verdade que me guia.
Chapada Diamantina, um diamante bruto feito de terra viva.
- E chove um sangue brilhante a dias!
Transbordou uma paciência ao minguar da Lua. A rolou pelo rio que guia diversas criaturas. O sol nem passou por lá para queimar os estrangeiros.
Sadios são os que buscam mais em menos, mas buscar a vida em poucos dias de verão não é recomendável, então, deitar e contar gotas pode ser saudável.
Na situação verão em que me encontrava, só a iluminação lusque-fusque poderia me hibernar. Na chuva sem problemas, até que molhasse a ponto de umedecer as mãos e não mais secar.
As barracas de feira, cachoeiras e chuva em plena rua principal, me lembraram Piracicaba. Águas marrons, rio e água passada da qual ainda não matei a minha sede.
Passos e passos em direção ao um encontro interior. A chuva não parou, resolvi chover também. E quando comecei, me arrepiei: vi de perto as gotas do meu querer integrar. A vivência veio com o vento e a neblina, as horas sumiram e dentro das nuvens, tive que molhar a vida.
A chuva deixou vir sol por instantes, a cachoeira brilhou ao meio-dia a água levava a força da Chapada em seu lençóis. Um poder, uma exuberância gritava e fui calada com o pensamento a me lapidar nas subidas.
O corpo foi sereno com um quê de sofrimento na lama, mas a paciência se somou a paisagem, uma freqüência única me vibrou, estava cercada por relevos maravilhas...o morro do castelo, onde moram os reis espirituais.
O cachoeirão, momento mais bonito, as cachoeiras dançaram e tudo que estava preso soltei, virei cachoeira também.
Os dias de Chapada se passaram bem e como os rios transbordou também a vida. A minha alegria de poder contar com a vida se quando dias iluminados e que iluminam vêm como água, diluem a minha terra.
E dentre muitos dias iluminados de verão, veio um dia em que conheci um lugar forte chamado Campina. Aquela rede espiritual foi visualizada e ri, minhas mãos reagiram se esfregando, mas as abri e o dia passou me acariciando.
Mais vizinhos de tempo e mais amigos conhecidos a pouco. E mais uma vez me banhei da águia que dilui a minha terra.
E depois subia até bufar, eu até dizer nossa e ufa. Muitos metros e água venta e a respiração renova. Senti paz e desassossego. Senti pedra, terra, água e medo. A chuva estravaza e grita o rio quando quer. A meia noite Deus é mais e ela é poderosa.
As flores e os jardins. O lodo e o musgo, as mãos e os pés até fumaça por baixo, até gigantesco agradecimento pela vida, até vontade de voltar. È difícil ficar só, ainda mais quando há gente por perto. A terra ficou dura pra mim, mas fiquei tranqüila, um pouco mais forte e bonita.
(Me) banhei como devia, num semi-círculo, na arte viva jorrando duas quedas de transformação. Abri os braços do tamanho da Chapada e me convidaram a cantar: “cachoeira tem flor”.
As plantas em lugares planejados, as forças maiores escolheram os lugar certo mais uma vez.
- Ta tudo programado?
Subi na pedra e gritei sem exitar, aquele grito que só quem arrisca petisca. Atrás das cortinas senti saudades, muitas saudades e junto com o Palmital mandei lembranças. Evocamos energias de lá e enviamos raios de luz.
A fé me tomou.
Justo o sol quis descansar, mais uma vez algo morria e nascia. E nadei em forma de despedida.